Goiânia ocupa o último lugar entre as 27 capitais brasileiras no ranking de leitura, segundo a 6 ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Apenas 40 % da população com 5 anos ou mais afirmou ter lido, inteiro ou em partes, ao menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Essa lancinante realidade revela o pouco valor atribuído a essa prática tão significativa e prazerosa. A cidade que canta seus ipês floridos, seus jovens universitários e sua tranquilidade urbana amarga, agora, o título de capital que menos lê no país. A notícia, embora triste, convida a reflexão por que lemos tão pouco?
Ler é mais do que folhear páginas. É abrir as janelas da existência. Viajar para lugares longínquos, no espaço e no tempo, sem sair do lugar. A leitura é uma ferramenta de percepção da realidade, desenvolvimento do pensamento crítico e de sensibilidade para o humano. Além disso, é um direito cultural e educativo, essencial para qualquer sociedade que almeje um desenvolvimento pleno. Quando uma capital como Goiânia apresenta baixos índices de leitura, há algo que precisa ser urgentemente revisado.
Diversos fatores ajudam a entender esse quadro. A começar pela infraestrutura cultural da cidade. Quantas bibliotecas públicas temos em funcionamento pleno? Quantas livrarias acessíveis existem fora dos grandes shoppings? Em muitos bairros da capital, é mais fácil encontrar uma farmácia 24 horas do que um espaço de leitura ou biblioteca. E nas escolas, apesar dos esforços de muitos professores, faltam acervos atualizados, projetos de incentivo à leitura e, muitas vezes, tempo no currículo para cultivar o hábito de ler com prazer.
Além disso, outro fator de empecilho é a concorrência com o entretenimento digital — redes sociais, vídeos curtos, maratonas de séries — que consomem o tempo e a atenção dos leitores em potencial. É como se o mundo tivesse ficado mais barulhento e o silêncio necessário para a leitura se tornasse cada vez mais raro. Não se consegue parar a mente, tão acostumada à rapidez e à dinâmica dos vídeos e estímulos digitais, faz da leitura quase uma impossibilidade. Diametralmente oposta é a história de Policarpo Quaresma, no livro “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Lima Barreto), o goianiense (em sentido genérico) não é ávido pela leitura. O personagem em questão era um fanático leitor de literatura que descrevesse o Brasil. E que até vai para o outro extremo, o de ficar louco por ler tanto. Aparentemente vivemos ironicamente no outro lado do pêndulo.
Mas nem tudo está perdido. Há luzes acesas em meio à escuridão das estatísticas. Projetos comunitários de leitura, bibliotecas itinerantes, professores que incentivam clubes do livro, rodas de leitura em praças e feiras literárias que, mesmo com poucos recursos, semeiam transformação. O que falta é o poder público reconhecer o valor dessas iniciativas e ampliar seu alcance.
Goiânia pode — e deve — virar essa página. É preciso investir em políticas públicas de fomento à leitura, formar possíveis leitores e mediadores culturais, fortalecer o papel das escolas e democratizar o acesso ao livro. A mudança não virá de uma única ação, mas de um conjunto de estratégias que envolvam governo, comunidade, educadores e famílias.
No fim, a questão não é apenas quantos livros estão sendo lidos. É que histórias não lidas geram vozes silenciadas. E uma cidade que não lê, aos poucos, deixa também de escrever seu próprio futuro. “Um país se faz com homens e livros”, disse Lobato.