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A política que invade a nossa casa

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Opinião | Marcos Marrom – fundador e diretor do Jornal Pacity

Começou oficialmente a corrida eleitoral de 2026. E talvez não exista maneira mais rápida de perceber isso do que pegar o celular.

A timeline mudou. Os candidatos começaram a aparecer. Alguns já eram conhecidos. Outros surgem como novidade. Alguns estão tentando conquistar um novo mandato. Outros aparecem depois de anos longe dos olhos da população. De repente, somos cercados por vídeos, fotografias, slogans, promessas, bandeiras, discursos e frases cuidadosamente produzidas para conquistar alguns segundos da nossa atenção.

A eleição começou. Mas será que começamos a discutir o que realmente importa? Essa é a pergunta que deveria nos acompanhar durante os próximos meses. Porque uma eleição não deveria ser apenas uma disputa para saber quem vai ocupar uma cadeira. Ela deveria ser uma discussão sobre que sociedade queremos construir.

E talvez esse seja o nosso maior problema estamos acostumados a discutir quem ganha, mas pouco discutimos o que queremos ganhar como sociedade. A política que invade a nossa casa. A política entra na nossa casa antes mesmo de bater à porta.

Ela chega pelo celular, pela televisão, pelo rádio, pelas redes sociais e pelas conversas de família.E, em muitos casos, chega provocando brigas.

Não é raro vermos famílias divididas por candidatos, amigos que deixam de conversar, vizinhos que passam a se tratar como adversários e pessoas que confundem divergência política com inimigo pessoal.

Mas quando chegamos a esse ponto, talvez seja necessário perguntar quem está ganhando quando a sociedade está ocupada demais brigando entre si?

Discordar faz parte da democracia.O problema é quando deixamos de conversar.

Uma sociedade democrática precisa ser capaz de dizer “eu penso diferente de você” sem transformar essa diferença em ódio.

Precisamos recuperar a capacidade de discutir política sem perder a capacidade de enxergar o ser humano que está do outro lado.

O voto que levou séculos para chegar até nós Existe algo que não podemos esquecer.

O direito de votar não nasceu pronto. Durante grande parte da história, o poder político esteve concentrado nas mãos de poucos. Pessoas pobres, trabalhadores e mulheres tiveram sua participação política limitada ou simplesmente negada.

O direito de participar das decisões da sociedade foi sendo conquistado por meio de lutas sociais. Por isso, quando alguém diz que política não importa, talvez esteja esquecendo que boa parte dos direitos que possui hoje nasceu justamente de disputas políticas.

O descanso semanal, as férias, direitos trabalhistas, participação das mulheres na vida pública, acesso à educação e tantas outras conquistas não apareceram espontaneamente. Houve pessoas que lutaram. Houve trabalhadores que se organizaram. Houve mulheres que enfrentaram uma sociedade que dizia que determinados espaços não pertenciam a elas. Houve gente que pagou um preço para que outros pudessem viver com mais direitos.

Hoje temos a possibilidade de votar. Mas será que estamos usando esse direito com a mesma responsabilidade com que ele foi conquistado?

O eleitor também precisa amadurecer

Existe uma parte da responsabilidade que não pode ser colocada somente nos políticos. Ela também é nossa. Ainda existe uma cultura política baseada na promessa fácil. O candidato aparece dizendo que vai resolver tudo. O eleitor compartilha. A imagem circula. O vídeo viraliza. E muitas vezes ninguém pergunta o principal:

Como?

Como será feito?

Quanto vai custar?

De onde virá o dinheiro?

Qual é o prazo?

Quem será beneficiado?

O candidato já teve oportunidade de fazer isso antes? Se teve, fez?

Essa última pergunta é fundamental.

Porque promessa qualquer pessoa pode fazer. O histórico é mais difícil de esconder. Antes de escolher alguém, precisamos olhar para trás.

Precisamos pesquisar. Precisamos comparar. Precisamos procurar informações em diferentes fontes. Precisamos observar não somente aquilo que o candidato fala sobre si mesmo, mas também aquilo que fez quando teve oportunidade de decidir.

Democracia também é pesquisa.

O santinho no chão não pode decidir o nosso futuro. Existe uma cena que se repete em praticamente toda eleição.

Na porta das escolas, o chão fica coberto de pequenos papéis. São os famosos “santinhos”. E existe até aquele eleitor que brinca dizendo que vai pegar o primeiro papel que encontrar para escolher seu candidato.

A brincadeira revela algo muito maior. Se chegamos ao momento de votar sem saber quem são os candidatos, o problema não é apenas deles.

É também nosso. Não podemos entregar o futuro de uma cidade, de um estado ou de um país ao acaso. O voto não pode ser o primeiro papel encontrado no chão. Não pode ser apenas o candidato mais famoso. Não pode ser apenas aquele que aparece mais vezes no celular.Não pode ser simplesmente aquele indicado por um amigo. E também não deveria ser comprado por uma promessa.

A política virou um grande espetáculo?

Talvez essa seja uma das perguntas mais incômodas desta eleição. Quanto da política atual é ação e quanto é encenação? vivemos em uma época em que uma boa fotografia pode valer mais do que um bom projeto. Um vídeo bem produzido pode esconder uma proposta vazia.

Uma frase de efeito pode circular milhões de vezes enquanto um projeto importante permanece desconhecido. A política aprendeu a disputar nossa atenção. Mas quem está disputando nossa atenção nem sempre está disputando nossas necessidades. É preciso separar comunicação de resultado. Porque governar não é produzir conteúdo para as redes sociais. Governar é resolver problemas.

E resolver problemas exige planejamento, orçamento, equipe, acompanhamento e coragem para tomar decisões que nem sempre dão votos imediatamente.

enquanto discutimos os candidatos, existe outra transformação acontecendo silenciosamente.

tecnologia está mudando o mundo do trabalho. A inteligência artificial e a automação já começam a substituir tarefas que antes dependiam exclusivamente de pessoas. Isso significa que milhares de trabalhadores precisarão se adaptar. Algumas profissões vão desaparecer ou diminuir. Outras vão surgir. E a pergunta política será inevitável:

O que faremos com as pessoas que forem deixadas para trás nessa transformação?

Não podemos esperar o desemprego chegar para começar a discutir qualificação profissional. Precisamos pensar agora.

Educação tecnológica. Formação profissional. Novas oportunidades. Empreendedorismo. Ciência. Inovação. E principalmente como garantir que a tecnologia seja instrumento de desenvolvimento e não apenas uma máquina de concentração de riqueza? Essa discussão ainda é pequena perto do tamanho do problema.

Enquanto isso, os bairros continuam esperando

No bairro, a realidade é menos sofisticada. Não existe filtro. Não existe edição. Existe a rua que precisa de pavimentação. Existe a iluminação que não funciona. Existe a criança que precisa de oportunidade. Existe o jovem que precisa de esporte. Existe a família que espera atendimento de saúde. Existe o trabalhador que enfrenta horas de deslocamento. Existe a comunidade que pede segurança.

E existe um problema que precisa ser tratado com muita seriedade o avanço da criminalidade organizada e das estruturas criminosas sobre territórios onde o, Estado muitas vezes chega tarde. Não podemos normalizar isso. Uma comunidade abandonada pelo poder público se torna vulnerável. Quando faltam educação, cultura, esporte, emprego, iluminação, planejamento urbano e oportunidades, outros poderes ocupam o espaço. E depois nos perguntamos por que a violência cresceu.

O futuro também está debaixo dos nossos pés

Existe ainda uma questão que não pode ser adiada o meio ambiente.

Água. Nossos rios. Nossas nascentes. Nossas áreas verdes. O crescimento das cidades. O uso do solo. A ocupação desordenada. Não podemos pensar que esses problemas serão resolvidos por alguém daqui a quatro anos.

Se continuarmos tratando o meio ambiente como um assunto secundário, vamos descobrir tarde demais que desenvolvimento sem planejamento pode destruir aquilo que sustenta a própria vida.

Um país sério precisa pensar além do calendário eleitoral. “Onde está o projeto de país”?

Talvez seja essa a maior pergunta desta eleição. Onde está o projeto? Não apenas o projeto de um candidato. O projeto de sociedade. Que país queremos daqui a 20 anos? Que educação queremos oferecer aos nossos filhos? Que empregos existirão? Como vamos cuidar da água?Como enfrentaremos a violência? Como vamos preparar nossos jovens? Como vamos utilizar a inteligência artificial? Como vamos reduzir desigualdades? Como vamos fortalecer nossas cidades? Como vamos garantir que o desenvolvimento chegue também às periferias? Essas perguntas deveriam estar no centro da eleição. Mas muitas vezes elas são substituídas por uma guerra de narrativas. Um lado contra o outro. Um candidato contra o outro. Uma bandeira contra outra. Um país contra outro. E, no meio disso, o cidadão fica perdido.

É fácil colocar toda a culpa nos políticos. Mais difícil é reconhecer que eles também são escolhidos por nós.A sociedade escolhe. A sociedade acompanha. A sociedade fiscaliza. A sociedade cobra E a sociedade também precisa aprender. Não existe democracia forte com uma população completamente desinteressada.

Não precisamos concordar uns com os outros. Precisamos participar. Precisamos perguntar. Precisamos cobrar.

Precisamos pesquisar. Precisamos entender que política não acontece somente durante a campanha Ela acontece todos os dias. Quando uma criança entra em uma escola. Quando uma família procura um posto de saúde. Quando um trabalhador perde o emprego. Quando uma rua fica sem iluminação. Quando uma nascente desaparece. Quando um jovem encontra no esporte uma oportunidade ou quando não encontra nenhuma. Tudo isso também é política.

A eleição passa. As consequências ficam.

Daqui a alguns meses, os candidatos terão passado pelas ruas. Os carros de som terão diminuído. As bandeiras serão recolhidas. Os santinhos desaparecerão das calçadas. As redes sociais voltarão ao normal. Mas aqueles que forem eleitos continuarão lá. E nós continuaremos aqui. Vivendo as consequências das escolhas que fizemos. Por isso, talvez a pergunta mais importante de 2026 não seja: “Em quem você vai votar?” Talvez seja: “O que você espera que aconteça com a nossa sociedade depois que você votar?” Se a resposta for apenas “que o meu candidato ganhe”, estamos pensando pequeno. Precisamos desejar mais.

Precisamos querer uma sociedade mais justa, mais segura, mais educada, mais preparada para o futuro e menos desigual.A eleição é apenas um momento. O país é permanente.

E talvez esteja na hora de deixarmos de escolher apenas quem vai governar os próximos quatro anos e começarmos a discutir quem queremos ser como sociedade nas próximas décadas. Porque o futuro não será decidido apenas pelos candidatos.

Ele também será construído pelas escolhas que nós fazemos hoje.

Jornal Pacity — opinião, comunidade e o direito de pensar diferente.

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