No Dia dos Professores, os discursos de homenagem se multiplicam, mas os problemas dentro das escolas continuam. Salas lotadas, falta de apoio, adoecimento profissional e a tentativa de transformar o conhecimento em disputa política revelam uma realidade que vai muito além das mensagens de parabéns.
Por Marcos Marrom — Jornal Pacity
Hoje é Dia dos Professores. Nas redes sociais, muitos políticos, autoridades e representantes do poder público vão publicar mensagens bonitas, agradecer aos educadores e reconhecer a importância dessa profissão. Mas fica uma pergunta: quantos desses mesmos parlamentares estão, de fato, lutando para garantir condições dignas de trabalho dentro das escolas?
Porque, para muitos professores, hoje não é exatamente um dia de comemoração. É mais um dia de resistência.
Enquanto os parabéns se multiplicam, as salas de aula continuam superlotadas. Há professores que precisam administrar turmas com 35 ou 40 alunos, lidar com diferentes necessidades de aprendizagem, enfrentar conflitos e ainda cumprir metas e cobranças administrativas. Em muitos casos, tiram dinheiro do próprio bolso para desenvolver atividades e oferecer aos estudantes aquilo que deveria ser garantido pela estrutura escolar.
Essa realidade raramente aparece nas homenagens oficiais.
Ensinar virou motivo de desconfiança?
Outro problema preocupa: a crescente tentativa de transformar a escola em um campo de batalha política. Há parlamentares que acusam professores de doutrinação ideológica, como se ensinar História, discutir a sociedade e apresentar conhecimentos científicos fossem ameaças.
Precisamos separar as coisas. Ensinar sobre a ditadura militar brasileira não é doutrinar. Estudar o nazismo não significa defender o nazismo. Pelo contrário: conhecer esses períodos históricos é fundamental para compreender como sociedades podem chegar a situações de autoritarismo, perseguição e violência.
A escola precisa ensinar o estudante a ler, escrever, interpretar, pesquisar, questionar e desenvolver pensamento crítico. O professor não deve impor uma visão de mundo, mas também não pode ser impedido de apresentar conhecimentos porque determinado assunto incomoda alguém.
Quando o ensino da História passa a ser tratado como suspeito, quem perde é a sociedade. Uma população que não conhece o próprio passado corre o risco de repetir erros que custaram caro à humanidade.
A escola não pode ser transformada em palco de guerra ideológica. Mas também não pode ser silenciada pelo medo de desagradar aos poderosos.
O professor precisa ser tudo, mas recebe apoio para quê?
Em uma conversa recente com uma aluna, compartilhei uma percepção que considero cada vez mais evidente: ser professor no Brasil é enfrentar uma batalha diária.
O educador precisa ensinar, avaliar, planejar, acompanhar dificuldades, mediar conflitos e tentar compreender a realidade de cada estudante. Em determinadas situações, acaba exercendo também o papel de conselheiro, referência afetiva e mediador de problemas familiares e sociais que ultrapassam os limites da sala de aula.
Mas quem cuida de quem cuida?
Nem todos os estudantes aprendem da mesma maneira. Alguns assimilam melhor o conteúdo pela leitura e pela escrita; outros precisam ouvir, observar, experimentar e colocar a aprendizagem em prática. Há também alunos que necessitam de acompanhamento especializado e adaptações pedagógicas.
É impossível ignorar essas diferenças quando se trabalha com dezenas de estudantes ao mesmo tempo.
A inclusão de pessoas com deficiência, por exemplo, não pode existir apenas no discurso. É necessário garantir acessibilidade, profissionais de apoio quando necessários, recursos pedagógicos e condições reais para que cada estudante participe do processo de aprendizagem.
Sem estrutura, a responsabilidade recai quase inteiramente sobre o professor, que precisa dar conta de tudo, mesmo quando não dispõe dos recursos necessários.
E não podemos esquecer o adoecimento profissional. Professores relatam esgotamento, ansiedade e dificuldades para continuar na carreira. Há profissionais que abandonam a sala de aula e procuram outras áreas porque já não conseguem suportar a pressão cotidiana. Quando alguém que dedicou anos à formação decide desistir de ensinar, precisamos perguntar o que aconteceu.
Não é justo tratar esse sofrimento como falta de vocação.
Disciplina, segurança e inclusão precisam caminhar juntas
Também precisamos discutir a convivência e a segurança nas escolas. Conflitos, ameaças, intimidações e situações de violência tornam ainda mais difícil o trabalho de quem deveria estar concentrado no ensino.
O professor não pode ser deixado sozinho diante de situações que exigem apoio da gestão escolar, das famílias, de profissionais especializados e das políticas públicas de proteção.
Defendo que a disciplina e a organização escolar sejam levadas a sério. Por isso, vejo valor em modelos de escolas que trabalham com regras claras, responsabilidade e respeito à comunidade. Mas é preciso ter cuidado para não transformar a disciplina em privilégio de quem já apresenta bom comportamento ou melhores resultados.
Se uma escola com organização e acompanhamento consegue contribuir para a formação dos estudantes, esse conhecimento precisa inspirar políticas que alcancem também os jovens que enfrentam dificuldades familiares, sociais e educacionais.
A educação pública não pode selecionar apenas quem já está adaptado às regras e deixar para trás quem mais precisa de orientação.
O objetivo deve ser formar cidadãos, recuperar vínculos, promover responsabilidade e criar oportunidades. Disciplina sem inclusão é insuficiente; inclusão sem estrutura também não funciona.
Quando o sistema desvaloriza quem ensina
Há relatos de professores que se sentem pressionados por cobranças administrativas e por decisões das redes de ensino que, segundo eles, dificultam o exercício da profissão. Também existem preocupações com avaliações, índices de aprovação e metas institucionais.
É necessário apurar cada situação concreta, mas uma questão não pode ser ignorada: nenhum indicador educacional deveria valer mais do que a aprendizagem real dos estudantes.
A avaliação precisa servir para identificar dificuldades e ajudar o aluno a avançar. Não pode se transformar em instrumento de pressão que esvazie a autonomia pedagógica ou incentive resultados artificiais.
O estudante precisa ser avaliado com responsabilidade, e o professor precisa ter condições de ensinar, acompanhar e corrigir os rumos da aprendizagem.
Não se trata de defender a reprovação como solução para todos os problemas, mas de reconhecer que aprender exige acompanhamento, critérios e compromisso. Aprovar sem garantir aprendizagem não resolve a desigualdade educacional. Apenas adia o problema.
Também precisamos falar sobre a inteligência artificial. As novas tecnologias estão transformando a maneira como estudamos, pesquisamos e produzimos conhecimento. O professor precisa de formação continuada para utilizar essas ferramentas de forma crítica e responsável.
Mas não podemos exigir que esse profissional se reinvente constantemente sem oferecer tempo, formação, equipamentos e apoio. A tecnologia deve ampliar as possibilidades de ensinar, e não se tornar mais uma cobrança sobre quem já trabalha no limite.
O neoliberalismo e a perda do valor social da educação
Será que estamos diante de uma crise provocada, em parte, por uma lógica que transforma tudo em números, metas, produtividade e resultados imediatos?
Essa é uma reflexão necessária.
Quando a educação passa a ser tratada apenas como despesa, o professor corre o risco de ser visto como um custo, e o estudante, como um número em uma planilha. A pressão por indicadores pode ocupar o espaço do debate sobre formação humana, cidadania, inclusão e desenvolvimento social.
Não podemos atribuir todos os problemas da escola a uma única corrente econômica ou política. A crise educacional tem muitas causas, e as soluções exigem responsabilidade de governos, gestores, famílias e da própria sociedade.
Entretanto, precisamos questionar um modelo que cobra cada vez mais dos profissionais, mas nem sempre oferece as condições necessárias para que realizem seu trabalho.
A educação não é uma fábrica de certificados. É um processo de formação de pessoas, de construção de autonomia e de preparação para a vida em sociedade.
Afinal, o que significa valorizar um professor?
Valorizar o professor é mais do que publicar uma fotografia nas redes sociais em 15 de outubro.
É garantir salários dignos, carreira, formação continuada, ambientes seguros, turmas com condições adequadas de atendimento, recursos pedagógicos, acessibilidade e apoio à saúde mental.
É respeitar a autonomia profissional sem abandonar a responsabilidade de avaliar a qualidade do ensino. É combater a violência, enfrentar o assédio e assegurar que os educadores possam trabalhar sem medo de ensinar conteúdos previstos no currículo.
É também reconhecer que os professores não fazem milagres. Nenhum profissional, por mais dedicado que seja, consegue substituir sozinho a ausência de políticas públicas, a falta de estrutura e a necessidade de uma rede de proteção aos estudantes.
Apesar de todas essas dificuldades, continuo acreditando que o magistério é uma das profissões mais bonitas e importantes que a sociedade construiu. É por meio da educação que aprendemos a ler o mundo, compreender nossas diferenças e imaginar outras possibilidades de futuro.
O problema não é a falta de importância do professor. É a distância entre a importância que dizemos reconhecer e o valor que efetivamente damos a esse profissional.
Neste Dia dos Professores, deixo três perguntas para os nossos leitores, para os gestores públicos e, principalmente, para os parlamentares que hoje farão homenagens:
Será que o professor deixou de ser importante ou a sociedade deixou de reconhecer sua importância?
Será que os parabéns publicados hoje vêm acompanhados de compromissos reais com a educação?
E, quando as homenagens terminarem, quem continuará lutando por aqueles que dedicam a vida a ensinar?
Porque o professor merece muito mais do que aplausos em um único dia do ano. Merece respeito, condições de trabalho e políticas públicas que permitam exercer sua profissão com dignidade.
Feliz Dia dos Professores. Mas que o nosso reconhecimento não termine quando o dia 15 de outubro acabar.
Marcos Marrom — A sua voz.